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26 de Maio de 2010
Sam Zell mira até celulose no Brasil
Um dos maiores investidores globais do mercado imobiliário, o bilionário americano Sam Zell, dono da Equity International, pretende aproveitar o bom momento que vive o Brasil para colocar em prática duas estratégias distintas. Ao mesmo tempo em que vai vender ativos no país para entregar retorno aos primeiros fundos que investiram aqui, está disposto a diversificar e experimentar setores completamente novos. Em entrevista ao Valor, Thomas McDonald, diretor de estratégia da Equity International (EI) diz que está avaliando o mercado de celulose.
Se entrar no setor de plantio de árvores, vai engrossar o coro dos "forasteiros" que viram na matéria-prima para fabricação de papel um mercado bastante promissor - caso da J&F, que controla a JBS Friboi, maior indústria de carnes do mundo. "É um setor contra-cíclico nos momentos de inflação e as condições do plantio são extremamente favoráveis no Brasil", afirma McDonald, demonstrando familiaridade com o assunto.
No Brasil, a combinação entre clima favorável e avançada pesquisa em biotecnologia permite que o eucalipto seja cortado em sete anos. Já no hemisfério norte, o corte das árvores acontece em vinte anos ou mais. Somente neste ano, foram anunciados seis reajustes de preços e a celulose, na Europa - considerado referência por ser o maior mercado consumidor -, está cotada a US$ 920 por tonelada, perto do pico histórico.
Seria um mercado inédito para Sam Zell, que fez fortuna com a compra de ativos imobiliários desvalorizados no início dos anos 90 e fama com investimentos certeiros e lucrativos, como a mexicana Homex, empresa mexicana especializada na construção de imóveis populares. Na outra investida que fez fora do ramo imobiliário - a polêmica compra da empresa de jornais "Tribune" por US$ 8,2 bilhões em 2007 - não ganhou do mercado o mesmo reconhecimento das tacadas certeiras do portfólio de imóveis.
Com mais de US$ 1,5 bilhão sob administração, a Equity International tem 50% dos seus negócios no Brasil. A outra metade está dividida entre China, Egito, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia. Criada em 1999, a companhia investe através de fundos de participação. Já constituiu quatro deles - o primeiro foi concluído em 2008 e os demais estão em andamento. Está em fase de captação de um novo fundo, mas não fala no assunto. Segundo a Bloomberg publicou na semana passada, pretende investir cerca de US$ 500 milhões no Brasil, cerca de três quartos do que deve levantar. Thomas McDonald limita-se a dizer que deve manter a proporção atual - de 50% dos investimentos no Brasil. "Não existe mercado com a mesma escala do Brasil tão bem posicionado neste momento", afirma.
Com atuação bastante ativa na gestão das companhias nas quais têm participação, no Brasil, a Equity International tem investimentos na Gafisa, BR Malls, Bracor, AGV Logística e, o último - realizado este ano - Brazilian Finance & Real Estate (BFRE). Essas participações colocam a empresa em praticamente todos os segmentos do mercado imobiliário: residencial, grandes imóveis para aluguel, centros de distribuição, logística, produtos financeiros e securitização. O que resta, então, para investir no setor imobiliário e não gere conflito com o portfólio atual? "Estamos olhando novos formatos de negócios, como os centros de conveniência, com vários tipos de serviços", afirma o diretor da Equity International. "Os bons fundamentos da economia brasileira e o crescimento da classe média fazem do varejo um setor muito atrativo", completa.
Segundo o executivo, a EI também está avaliando a possibilidade de "casar" seus diversos ativos e fazer fusões estratégicas. Um exemplo seria a união entre a área residencial e a a hipotecária, da BRFE. "Seguimos buscando uma definição maior de mercado imobiliário, além de boas oportunidades onde possamos ajudar a criar valor e fazer o negócio crescer."
A venda de parte das ações da Gafisa - a empresa de Zell continua com 7,2% - há pouco mais de duas semanas dá uma pista importante da estratégia de negócios do megainvestidor americano no Brasil. Segundo McDonald, a ideia é aproveitar a liquidez dos ativos e a sede de investimentos dos fundos de pensão brasileiros e de investidores locais capitalizados, como os Fipes (fundos de participação) - para vender ativos. "Vamos aproveitar o momento para realizar lucro", diz. Muitos dos ativos que devem ser vendidos fazem parte do Fundo II, com mais de cinco anos de investimentos e já em fase de maturação. Pretendem vender prédios inteiros comerciais já alugados ou a sede de grandes companhias - ativos que estão na Bracor e na Brazilian Capital, braço da BRFE, último investimento feito no Brasil, com a compra de 20% do negócio. "Há muita demanda e temos bons ativos para vender."
Sobre a redução da participação em Gafisa apenas dois anos depois de ter aumentado os investimentos na empresa - em outubro de 2008 a participação da EI passou de 13,7% para 18,7% em Gafisa e em março de 2009, comprou 4,86% da Tenda, depois incorporada pela Gafisa - o executivo diz que não se trata de um problema com a empresa. A saída provocou forte queda das ações da Gafisa e foi interpretada pelo mercado como insatisfação com o desempenho da companhia. A margem líquida da companhia é uma das mais baixas do setor - ficou em 7% no primeiro trimestre, mais baixo que 13 empresas abertas, entre elas todas as maiores - Cyrela, PDG, MRV e Rossi - e também abaixo da média de mercado, de 14%. "A margem ainda está afetada pela fusão de Tenda e Gafisa, mas está subindo", defende.
Segundo McDonald, qualquer novo negócio da EI no setor residencial estará ligado e será complementar à Gafisa. "Sempre estamos olhando oportunidades", diz. O executivo avalia como certa a estratégia de PDG Realty de comprar a Agre. "Essa é a evolução natural do mercado residencial no Brasil", diz ele. "O mercado provou que gosta de tamanho."